Sobre Adultos e Crianças – As Diferenças entre Mudança e Desenvolvimento

Já sei previamente que serei crucificado por alguns, desrespeitado por outros e ignorado por muitos; tudo isso além de não ser lido pela maioria diante de um título que parece ser mais voltado para estudantes e estudiosos das áreas pedagógicas e psicológicas. Porém este texto é importante para mim e para aqueles atreverem-se a lê-lo.
C.S.Lewis, escritor do livro “As Crônicas de Nárnia” preparou um ensaio que tive contato quando adquiri seu famoso livro em versão completa e ampliada; um texto extremamente interessante chamado “Três Maneiras de Se Escrever para Crianças”.
Basicamente o texto não dá nenhuma formúla, tanto que C.S.Lewis diz isso complementando que o grande seguedo em escrever para crianças é respeitar sua individualidade, seu conhecimento e sua humanidade, não considerando-as tolas que nada sabem. Seus medos e desprazeres são tão sérios quanto os dos adultos, porém seu foco e origem diferentes. Uma criança, como ele próprio confidencia, pode ter medo de escuro; o adulto tem medo da realidade escondida no escuro.
Este é só um aperitivo para convidar todos que ainda não se aventuraram no fabuloso mundo de Nárnia e deste escritor fantástico sentirem um pequeno comichão para movimentar-se a mais próxima Biblioteca ou Livraria, porém quero me aprofundar um pouco mais em outro ponto do ensaio: a falta de respeito pela literatura fantástica e o mundo infantil.

Alguns Trechos Retirados do Ensaio “Três Maneiras De Se Escrever Para Crianças” de Clive Staple Lewis:
“Quando eu me tornei homem, deixei de lado as coisas infantis, incluindo o medo da infantilidade e o desejo de ser bem adulto”
“Os críticos para quem a palavra adulto é um termo de aplauso, e não um simples adjetivo descritivo, não são nem podem ser adultos. Preocupar-se em ser adulto ou não, admirar o adulto por ser adulto, corar de vergonha diante da insinuação de que se é infantil: esses são sinais característicos da infância e da adolescência. (…) Quando se mantém na meia-idade ou mesmo na juventude, essa preocupação é um sinal inequívoco de retardamento mental.”
“Hoje gosto de vinho branco alemão, coisa de que tenho certeza não gostaria quando criança; mas não deixei de gostar de limonada. Chamo esse processo de crescimento ou desenvolvimento, porque ele me enriqueceu: se antes eu tinha um único prazer agora tenho dois. Porém, se eu tivesse de perder o gosto por limonada para adquirir o gosto pelo vinho, isso não seria crescimento, mas simples mudança.”
“A verdadeira vítima do devaneio em que todos os desejos se realizam não se inspira na Odisseia, em A tempestade ou em A serpente Uroboros. Prefere histórias que falam de milionários, beldades irresistíveis, hotéis de luxo, praias tropicais e cenas picantes – coisas que poderiam realmente acontecer, que deveriam acontecer, que teriam acontecido se o leitor tivesse tido a justa oportunidade. Isso porque, como digo, existem dois tipos de anseio. Um deles é uma askesis, um exercício espiritual, o outro é uma doença.

A palavra ou a classificação “adulta” é tida como o supra sumo da leitura, e a literatura infantil, em especial a fantástica, menosprezada como literatura inferior não só no Brasil, um país de poucos leitores, como ao redor do mundo. As afirmações de Lewis são duras principalmente trantando-se ao “retardamento mental”, mas muito nobres e incentivadoras do “Por que não ser fantástico?”.
A Fantasia é só uma forma de entender a vida, uma alegoria para o dia a dia tanto de crianças quanto de adultos. Verdadeiramente só entendi muitos dos contos infantis depois de maduro, histórias deliciosas para passar o tempo e elocubrar sobre o nascimento de lugares, personagens e descrições tão ricas. Como infante, eu lia; hoje eu absorvo.
Talvez por falta de preparo de educadores, um mundo que valoriza o racional e não da espaço para magia, adultos que consideram crianças apenas a perpetuação de sua Casa Familiar, levem a esta situação bastante suja e desesperadora. A falta de fantasia faz brotar crianças e jovens impertinentes que não se permitem sonhar e acham rídicula a pessoa que sonha. Acredito que o saudável é nunca estar satisfeito com sua condição atual e tentar melhorar, mas não banalizar o que há de belo em cada uma das fases da vida.
Penso que como adulto sou uma evolução da criança, uma nova fase de desenvolvimento, e não me “mudei” para adulto, deixando a criança de lado. Até mesmo em metamorfoses profundas como a transformação de lagarta em borboleta, o que acontece não são mudanças, mas sim o desenvolvimento de um ser; não é necessário deixar para trás o conhecimento, apenas utilizar a sabedoria para ir além. O físico pode mudar. Conhecimento é para sempre, a Informação envelhece.

Lewis fala um pouco sobre os medos e de como eles nascem. Hoje acompanhamos escolas e pedagogos falando sobre deixar as histórias infantis mais corretas politicamente, um exemplo que vi foi o de um centro de educação infanto-juvenil que retirou (censurou) partes de “Chapeuzinho Vermelho” devido ao grau de violência da história. É muito pior ter medo, depressão e angústia por algo que é possivel acontecer (se você for perfeito em sua vida) e não alcançou, do que efetivamente de um Lobo falante que assopra e é guloso. A realidade escancarada assusta e causa estresse pré-traumático; uma metáfora para bandidos pedófilos somente alerta sem desesperar.
O melhor exemplo que posso dar é o livro “O Pequeno Príncipe”, que continua sendo um dos mais vendidos do mundo: depois de adultos, o pai e a mãe, passam a entender as histórias e querem dividir esta alegria com os filhos. Os adultos não querem ser o Pequeno Príncipe ou viver em seu planetóide, mas a complexidade da metáfora do autor Antoine de Saint-Exupéry é absorvida, compreendida e digerida pelos novos “Seres Evoluídos”.
Uma das características infantis que mais me assusta é o poder de serem vis e maus com graça angelical. Todos temos episódios em nossa lembrança infantil de amigos que fizeram maldades com animais ou até mesmo com colegas. Pode não ter sido você, mas tenho certeza da presença ocular em algum momento que foi escolhido propriamente para ser esquecido ou nunca ser lembrado. Isso não é pureza e muito menos inocência, é só a prova de que como os adultos, as crianças tem emoções boas e más, ações belas e assustadoras. Respeite a inteligência de uma criança.
Se ser adulto e envelhecer fosse tão bom, por que não consideramos “senil” como um adjetivo positivo? Perder os cabelos e ficar sem os dentes seria o máximo! – Bom mesmo é sonhar e utilizar a sabedoria em metáforas para permitir-se viver, e não apenas deixar a vida passar.
Finalmente, meu objetivo não é concluir, mas sim discutir. Incorreto seria afirmar que desejo um mundo infestado de “Peter Pans” barrigudos e inconvenientes, mas desejo sim pessoas com vontade e capacidade de discernir entre o certo e o errado. O garoto que nunca cresce é uma aberração com “retardo mental”, utilizando as palavras de C.S.Lewis, pois exatamente não quer evoluir, deseja manter tudo como está e mudar radicalmente sem sabedoria. O pobre e incompreendido Capitão Gancho é o mais são na história, aceitando o fantástico e convivendo com ele dentro da sua realidade.
Tomei uma decisão: Quando crescer, eu quero ser Criança.

2 comentários:

Brunna disse...

Gostei muito, e concordo com você... Acho que manter viva a criança dentro de nós é essencial para vivermos nesse mundo, mas sempre mantendo a "sanidade" de um adulto (e ja estou interessada no livro, rs).

Gabriel Dualiby disse...

Quando estiver marcado o lançamento vou gritar para os 4 cantos!

Acho que as formas de evoluir é o que realmente nos diferencia, além dos nossos referenciais.

Ser "gente grande" só é bom quando entendemos o que era ser "gente pequena".